A origem da laranja apepu no Oeste do Paraná

Pioneiros 08 de Abril de 2021

O historiógrafo Harto Viteck neste artigo detalha com elementos de fontes credenciadas, a origem da presença do cítrico no Oeste do Paraná. 


Esboço taxonômico do Citrus aurantium (laranja amarga ou laranja apepú.
Imagem: Arte de Franz Eugen Köhler - Acervo Köeler's Medizinal Planzen - 1

Esboço taxonômico do Citrus aurantium (laranja amarga ou laranja apepú. Imagem: Arte de Franz Eugen Köhler - Acervo Köeler's Medizinal Planzen - 1

Laranja apepu vicejando no potreiro do Sítio dos Graff, na Linha Concórdia, no município de Marechal Cândido Rondon (PR), na década 2000.
Imagem: Acervo Vilton Graff - 2

Laranja apepu vicejando no potreiro do Sítio dos Graff, na Linha Concórdia, no município de Marechal Cândido Rondon (PR), na década 2000. Imagem: Acervo Vilton Graff - 2

Apepu em crescimento em  recuperação florestal (mata ciliar), de germinação espontânea.
Imagem: Acervo Vilton Graff - 3

Apepu em crescimento em recuperação florestal (mata ciliar), de germinação espontânea. Imagem: Acervo Vilton Graff - 3

Paraguaio Jorge Rolon à portar de seu casebre que construiu para servir de abrigo enquanto fazia  derrubada de mata (à machado) na propriedade de Otto Sander, que está na foto com a esposa Olinda (nascida Schmidt) e o filho Rudi. Acervo pessoal - 4

Paraguaio Jorge Rolon à portar de seu casebre que construiu para servir de abrigo enquanto fazia derrubada de mata (à machado) na propriedade de Otto Sander, que está na foto com a esposa Olinda (nascida Schmidt) e o filho Rudi. Acervo pessoal - 4


Os migrantes sulinos, ao chegarem no Oeste do Paraná, se depararam no meio da mata com exuberantes pés de laranja. Experimentaram a fruta. Nada boa ao paladar. Era estranhamente muito amarga em comparação com as variedades de laranja que conheciam no Sul. Dos paraguaios, que já residiam aqui, remanescentes das obrages¹, ficaram sabendo que eles a chamavam de “apepu” [imagem 1], origem na língua guarani.
 

¹ Grandes empreendimentos extrativistas de erva-mate e madeira instalados no Oeste do Paraná, quase 100% de capital argentino (NB).
 

Espalhada pela floresta, a cítrica vicejava, conforme a região, a exemplo de Marechal Cândido Rondon, em número maior ou menor de espécimes em determinada área. Por causa da grande concentração de plantas num desses locais, um povoado em Marechal Cândido Rondon foi denominado de Linha Apepu, no atual distrito de Porto Mendes.

Com prioridades e interesses mais imediatos, os migrantes nem se importaram em saber como estes pés de laranja chegaram às matas da região. Para eles eram simplesmente plantas nativas ou, como uma ou outra pessoa afirma, foram plantadas por ingleses: o que, de fato, nunca ocorreu.

O desinteresse pelo porquê da laranja apepu vicejar nas matas regionais e sua origem persiste como um assunto ignoto, não sabido, entre os moradores, até aqui.

Milhares e milhares desta árvore pereceram no desflorestamento da região. O pioneiro rondonense Vilton Graff, cuja família chegou em Marechal Cândido Rondon em 1952, época de grande cobertura florestal, em entrevista, conta: “As laranjeiras apepu cresciam em abundância nas selvas rondonenses e na forma selvagem produziam muitos frutos. Eram bastante azedos, mas as comíamos nos primeiros anos por não haver outros. Mais tarde elas cresciam aleatoriamente nos potreiros. Depois de maduros, caíam e o gado se alimentava”. [imagem 2]

A apepu cresceu espontaneamente nas selvas, considerando neste texto aquelas à região lindeira ao longo do Rio Paraná, a partir de sementes levadas por pássaros e mamíferos. Essa dispersão de sementes por animais é denominada de zoocoria (RODOLFO et alii, 2008: 1).

A frutífera ainda é encontrada em estado silvestre, em porções remanescentes de mata nativa no Oeste do Paraná ou em áreas de recomposição vegetal (matas ciliares), ou outro tipo, onde germina e se desenvolve a partir de sementes carregadas por aves ou outro bicho, como observa Vilton Graff.  [imagem 3]

A laranja apepu não é uma cítrica que medra exclusivamente no Oeste do Paraná. É encontrada em outros espaços geográficos do Estado. Um exemplo, é notada a presença da frutífera, é a região do atual município de Laranjeiras do Sul, conhecida na época oitocentista como os  "Campos do Nerinhê" (nerje, laranja azeda, na língua dos índios Kaigang). Os campos das laranjas azedas era o destino dos presos degradados pela província de São Paulo, para cumprir ali sua pena de morte comutada em degredo, largados à própria sorte em território habitado por índios arredios e cruéis (SPERANÇA, 2021, Online).

 A apepu também é  avistada no Paraguai e na província argentina de Misiones. Wilson José Arnhold, rondonense residente há muitos anos em Raul Penã, no país vizinho, em entrevista ao Projeto Memória Rondonense relata que “aqui no Paraguai temos muito desta laranja, muito usada pelos paraguaios. Ela existe nativa, nos matos restantes sempre se encontra”.

No país vizinho, a fruta é conhecida como “apepu hái”, ou pelos nomes de naranja hái, naranjo agrio, naranjo amargo (ABC Color, 2011, on-line).

O engenheiro-químico paraguaio Jorge Astigarraga Maidana, entrevistado pelo Projeto, corrobora a informação do periódico mencionado: “A apepu a gente conhece muito no Paraguai, é verdade. A fruta é aqui a famosa naranja agria, uma naranja hái. Hái, em guarani, significa amargo. Por exemplo, tomar tererê, o primeiro trago é hái, é amargo. Então, naranja hái, é laranja amarga. O nome próprio que se dá a naranja hái, é apepu. Conforme lhe convém, o paraguaio chama a fruta de apepu ou naranja hái. Hái é aquilo que não tem sabor, que não é doce, não é suave. Apepu significa uma laranja amarga.

Quanto ao aproveitamento da fruta na culinária, a professora Nadir da Silva Celestino, da cidade de Cascavel, explica: “Eu fazia muito doce da casca dessa laranja com os alunos na Escola Criança Feliz. Os alunos tinham no sítio e levavam muito. Era retirada a parte amarela, deixávamos na água por 3 dias, trocando a água 3 vezes por dia para sair o amargo. Levava ao fogo com açúcar até ficar no ponto de calda. Uns levavam assim e outros queriam cristalizadas. Muito saboroso”.

O produtor rural Rudi Sander, do distrito rondonense de Iguiporã, relata que seu pai contratou o paraguaio José Rolon, um ex-combatente da Guerra do Chaco², para derrubada de mata, e que este não bebia água sem espremer nela uma laranja apepú, em função da saúde que o suco da fruta cítrica proporcionaria, segundo o mateiro. [imagem 4]
 

² Foi um conflito bélico entre o Paraguai e a Bolívia por disputa territorial do Gran Chaco (NEVES, [2020?], online).
 

Quanto às propriedades medicinais da apepu, o informativo paraguaio referenciado, aponta: “Las hojas, flores, fruto e cáscara se utilizan como expectorantes, tranqüilizantes, antiespamódios, digestivos y depurativos. Las hojas frescas se usan como emolientes e contra las hemorroides (baño de asiento)”. A reportagem não fala das qualidades do suco para a saúde humana.

O engenheiro-químico Maidana informa que a apepu não tem somente propriedades medicinais: “As folhas contêm um óleo essencial, o ‘petitgrain’, muito utilizado na indústria de perfumes. Antigamente, o Paraguai exportava muito o produto para a França e a Alemanha inclusive, para produção de perfumes. A partir desse óleo se desenvolvia e produzia diferentes aromas. Esta é a grande utilidade e o grande valor que tem essa fruta, porque para consumir não dá, é muito hái, muito amarga. Atualmente, existem outros produtos mais abundantes e baratos que substituem o ‘óleo essencial’ da apepu e o produto está sem valor no mercado internacional da perfumaria”.

A Compañia de Maderas del Alto Paraná, de capital inglês, proprietária da antiga Fazenda Britânia, instalou uma destilaria ou alambique como chamavam os moradores, na localidade de Rio Branco, junto ao Porto 12 de Outubro ou São Francisco³ (agora submerso pelas águas represadas do Rio Paraná, no atual município de Pato Bragado) para extração do petitgrain das folhas da apepu que existia no mato e essências de erva-cidreira e de flores, revela Eustáquio Prates Santander, morador em Pato Bragado (2020), filho de Sandálio Prates Santander, paraguaio de Villa Rica, que foi gerente da destilaria.
 

³ Este porto foi instalado pela empresa argentina Nuñez y Gibaja, com sede em Posadas, e dona de um latifúndio (Lopeí) entre os atuais municípios de Toledo e Cascavel, onde extraía erva-mate e escoava via Rio Paraná, para seus moinhos de beneficiamento (NB).
 

As essências produzidas no Rio Branco eram exportadas às cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, levadas até Porto Mendes e depois de trem até Guaíra e de lá pelo Rio Paraná acima até a cidade paulista de Presidente Epitácio, de onde as barricas com as essências seguiam de trem até o destino final (NIEDERAUER, 2011: 37 e 38).

A colonizadora Maripá chegou a reativar a destilaria, porém, a queda do preço do petigrain no mercado internacional, fez a empresa desativar o alambique, ressalta Eustáquio Prates.

 

Afinal de contas, a laranja apepu é nativa ou exótica?

Pablo César Stampella, pesquisador argentino, explica que todos os tipos de cítricos são exóticos no continente americano. Portanto, não são nativos da América. Foram introduzidos inicialmente nas Antilhas, América Central, a partir de 1493 com mudas trazidas da Europa.  (STAMPELLA, 2015: 11).

Nota informativa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) descreve que as primeiras sementes ou mudas novas de laranja foram trazidas por Cristóvão Colombo (no ano referenciado por Stampella), trazidas das Ilhas Canárias espanholas para a ilha hoje dividida por Haiti e República Dominicana, localizada no Mar das Caraíbas, na América Central, de onde a cultura se expandiu para outras ilhas. Em 1516 se deram os primeiros plantios de cítricos no Panamá e dois anos depois no México. A introdução no Brasil se deu na mesma época (UFRGS, [2020?], online).

A origem dos cítricos é o Sudeste Asiático. A sua introdução no continente europeu se deu por conta dos muçulmanos (árabes), quando da invasão da Península Ibérica⁴, a partir do século VIII e durou mais de 700 anos (ibidem).
 

⁴ Compreende os países de Espanha e Portugal, em maior parte (NB).
 

Logo após as primeiras frutificações nas Antilhas, os cítricos escaparam do controle do cultivo humano, o que resultou na formação de populações espontâneas nos bosques e montanhas locais, assinalam Acosta, 1590; Cobo, 1890-1892, Puente Y Olea, 1900; e desde meados do século 16 no Paraguai subtropical, registra Gade, 1976 (apud⁵ STAMPELLA, ib.: 18).
 

⁵ Sinônimo em latim de “citado por”.
 

Essa disseminação natural se deu única e, exclusivamente, pela intervenção animal. Ao se alimentarem do fruto espalharam as sementes pelas florestas com as suas fezes, originando a laranja assilvestrada.

Citam Azara, 1847; Hernandez, 1888; Gambón, 1904; e Bertoni, 1918; que viajantes-exploradores do século 19 e do começo século 20 avistaram grandes formações de laranjais silvestres nas imediações das ruínas jesuíticas ou mesmo em núcleos jesuíticos existentes, como descreve Sánchez Labrador, 1910 (ibidem).

Se por volta de 1550, a laranja amarga ou apepu já vicejava no Paraguai, está ali a origem que explica a presença dela nas matas do Oeste Paraná: sementes e mudas foram trazidas do país vizinho pelos jesuítas quando da implantação do núcleo jesuítico de Ciudad del Guaíra, na confluência do Rio Piquiri com o Rio Paraná.

Como sucedido nas Antilhas, a cultura do cítrico escapou do manejo controlado, principalmente após os ataques dos bandeirantes que colocaram o grande centro jesuítico abaixo, e se propagou largamente pelas matas do Oeste do Paraná, por força da zoocoria, fenômeno antes explicado e que ainda se registra. E isso, indubitavelmente, fecha a questão sobre a origem e presença da laranja apepu na região oestina.

 

Referências:

GRAFF, Vilton. [março 2021]. Facebook.  Entrevistador: Harto Viteck (autor do artigo). Entrevista para o Projeto Memória Rondonense.

RODOLFO, Allyne Mayumi et alii.  Citrus aurantiuam L. (laranja-apepu) e Hoveni dulcis Thumb. (uva-do-japão); espécies exóticas invasora da trilha do Poço Preto no Parque Nacional do Iguaçu, Paraná, Brasil. Revista Brasileira de Biociências (UFRGS). Disponível em: < http://www.ufrgs.br/seerbio/ojs/index.php/rbb/article/view/1076 >. Acesso em 26 de março de 2021.

ARNHOLD, Wilson José. Whatsapp. [ABRIL 2021]. Entrevistador: Harto Viteck Entrevista ao Projeto Memória Rondonense.  

STAMPELLI, Pablo César. História local de naranja amarga (Citrus x aurantiaum L., Rutaceae) del Viejo Mundo asilvestrado em el corredor de las antíguas misiones jeusítica de la Província de Misiones (Argentina). Caracterización desde uma perspestiva interdisciplinária. Dissertação para obtenção de doutorado. Disponível em: < http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:t4eRLbw84L8J:sedici.unlp.edu.ar/bitstream/handle/10915/44653/Documento_completo__.pdf%3Fsequence%3D4+&cd=19&hl=p-BR&ct=clnk&gl=br >. Acesso em 28 de março de 2021.

ABC COLOR. Apepu hái. Disponível em: < https://www.abc.com.py/edicion-impresa/suplementos/salud/apepu-hai-269180.html >. Acesso em 28 de março de 2021.

MAIDANA, Jorge Astigarraga. Whatsapp[Abril  2021]. Entrevistador Harto Viteck. Entrevista ao Projeto Memória Rondonense.

CELESTINO, Nadir da Silva. Facebook [abril 2021]. Entrevistador: Harto Viteck.Entrevista ao Projeto Memória Rondonense.

SANDER, Rudi. Whatsapp (abril de 2021).Entrevistador: Harto Viteck. Entrevista para o Projeto Memória Rondonense.

SANTANDER, Eustáquio Prates. [setembro de 2019]. Entrevistadores: Arnold Lamb, Orlando Miguel Sturm e Harto Viteck. Entrevista para o Projeto Memória Rondonense. Disponível em: < http://www.memoriarondonense.com.br/entrevistas-single/pioneiro-eustaquio-prates-santander/10/. Acesso em 05 de abril de 2021.

NIEDERAUER, Ondy Hélio. Toledo no Paraná: a história de um latifúndio improdutivo, sua reforma agrária, sua colonização, seu progresso. Toledo: Tolegraf, Impressos Gráficos Ltda., 3ª ed., 2011.

SILVA, Daniel Neves. "Guerra do Chaco"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/guerras/guerra-chaco.htm. Acesso em 05 de abril de 2021.

UFRGS. A História da Laranja. Disponível em: < http://www.ufrgs.br/afeira/materias-primas/frutas/laranja/historia-da-laranja >. Acesso em 29 de março de 2021.

SPERANÇA, Alceu. O crime que deu origem ao extremo-Oeste. Cascavel: Preto no Branco, 2021. Disponível em: . Acesso em 18.04.2021. 

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