Marechal Rondon: história feita por gente que trabalha e ousa

Pioneiros 27 de Janeiro de 2019

Trata-se de mais um recorte histórico da edição do jornal O Presente, edição de 24 de julho de 2015, cuja publicação destacou importantes registros da historiagrafia da cidade de Marechal Cândido Rondon.

 



Município experimenta desenvolvimento que sempre foi pautado na força de trabalho de seu povo. Simbolizado esses milhares de incansáveis, Ilo Darci Weirich, a primeira criança a pisar neste solo, conta um pouco da trajetória que ele escreve até hoje.

 

Marechal Cândido Rondon é terra de gente trabalhadora e ousada. O sucesso de cooperativas e empresas, indústrias e homens do campo permitiram ao município, em pouco mais de 65 anos de colonização, experimentar o desenvolvimento hoje degustado. Há sempre o que melhorar, mas a força de trabalho e determinação de seu povo contribuiu para que se alacançasse índices de desenvolvimento humano e educação similares a de paises de primeiro mundo. Para representar a determinação e paixão pelo trabalho do rondonense nada melhor que falar com a primeira criança que pisou neste chão, em 1952, começou trabalhar aos nove anos de idade e até hoje, aos 67, exerce com satisfação a profissão que se confunde com amor. 

Ilo Darci Weirich veio com a família e foi a primeira criança colonizadora a pisar onde hoje é Marechal Rondon. Desde então, são mais de 55 anos dedicados ao trabalho, mais que a própria idade de Marechal a ser completada amanhã (25). No meio do caminho, Ilo foi piloto profissional de automobilismo, chegou a correr com Nelson Piquet, mas acabou dedicando a vida mesmo ao trabalho de mecânico. 

Por ironia do destino, Ilo começou a trabalhar fugindo do trabalho. "Meu pai se instalou do lado de uma mecânica, nos idos de 52 e 53. Era do saudoso Leo Borgmann. Naquele tempo só tinha carroças em Marechal, eram bem poucos carros. Quando eu vi aqueles carros na mecânica me apaixonei. Ficava pertinho, olhando, admirando. Até que um dia o proprietário viu a minha vontade e pediu se eu queria trabalhar. Eu tinha nove anos, fugi, fui para casa. Falei com a mãe e ela disse que era perigoso, pra eu não voltar lá (na mecânica", lembra. A insistência do então futuro patrão foi o empurrão que faltava. "Para minha surpresa, no outro dia ele apareceu lá em casa e pediu se eu não queria trabalhar. Nem esperei a mãe falar. Já disse sim, quero sim", recorda. 

"Hoje estou com 67 anos e não parei um dia de mexer com mecânica. Cada dia me apaixono mais. Estou aposentado há nove anos, mas enquanto Deus me der força e liberdade, vou continuar sempre nessa profissão. Não tem como largar, é impossível. Continuo na luta até hoje, com empolgação, entusiasmo e alegria", comenta.

No começo, conta Ilo, eram tempos mais difíceis. "Tinha pouco carro e todos eram importados. O Brasil não fabricava ainda. Era difícil, não tinha peças, a energia faltava, era complicado, era muito trabalho manual. Não tinha solda-elétrica, furadeira elétrica, nada disso existia. Era tudo no braço, menciona. Para ele entretanto, quanto maior o desafio, maior a satisfação. "A luta era assim, mas era gostoso.  A gente se sentia realizado quando conseguia executar um serviço assim, meio na dureza", frisa. 

Por conta do caráter agropecuário desde o início da colonização, os primeiros carros de passeio começaram a ganhar a companhia de cargueiros. "Muitos usavam os carros para passeio. Na época tinha muito Jeep e também Ford 29 em Marechal Cândido Rondon. Eram os automóveis que predominavam. Depois vieram os caminhõezinhos Dodge, Ford F-6 e mais pra frente, como na região tinha muitos ssuínos, começou a entrar o caminhão F-600 para levar suínos para São Paulo e Ponta Grossa. Isso nunca vou esquecer. Nos idos de 68 tinha 96 caminhões que puxavam porco. Era muito caminhão". 

Tudo o que aprendia, o trabalhador fazia questão de passar para frente. "Hoje têm vários donos de oficinas que foram meus alunos. Passaram pela na minha oficina e tive o prazer de ensinar. Hoje é bom vê-los na luta, se dando bem", frisa Ilo. Para ele, pena é a legisação dificultar que adolescentes iniciem cedo no mercado de trabalho. "Na minha época, comecei com 9 anos. Aos 18 eu já tinha minha oficina, ganhava meu dinheiro. Podia dar uma liberdade para essa moçada trabalhar com 12, 13 anos. Com 18 já seria um mecânico formado. Hoje não tem ninguém com 18 anos para trabalhar (com experiência). A minha maior satisfação seria, de novo, pegar uns três, quatro moleques e ensinar a profissão para eles, mas infelizemnte a lei é essa aí e não tem jeito", lamenta. 

 

AUTOMOBILISMO

A paixão pelos veículos levou o rondonense a pilotar, entusiasmado com as imagens da Fórmula 1 que chegavam com as primeiras televisões. "Aqui no interior a televisão começou pegar em 1970, na Copa do Mundo, em preto e branco. Daí a gente começou a ver alguma coisa de Fórmula 1 e eu pensei: como eu tô dentro disso aqui (envolvido com mecânica de automóveis), vou correr também. Vamos ver como é essa brincadeira", conta Ilo, que chegou a correr profissionalmente. "O primeiro carro que comprei foi um Karmann Ghia, e fui correr em Cascavel". Ilo correu com outros modelos de rua até iniciar profissionalmente. "Fomos indo até correr na Divisão 4. Eram protótipos, abertos em cima. Corri com alguns caras conhecidos, como Pedro Muffato, e tive a satisfação de largar duas vezes ao lado do Nelson Piquet, revela. Mas o automobilismo, sustentado pelo trabalho no dia a dia, começou a ficar caro demais. "Em 76 eu parei. O automobilismo começou a ficar moderno financeiramente e a gente não tinha condições, não tinha patrocínio. Era tudo no braço, por conta, aí eu parei, mas ficaram boas recordações, deu para aprender muito com os colegas", relembra. 

 

DE VOLTA AO TRABALHO

Sem as corridas, as atenções são mais uma vez dedicadas exclusivamente ao trablho, num tempo que deixou lembranças. "Hoje, a vida moderna, é muito corrida, os clientes têm pressa, tem que ficar pronto na hora. Naquela época ninguém era assim agitado. A vida era mais na calma. Se o cliente não tinha dinheiro, ficava ali no papelzinho (crédito), se não terminasse o serviço hoje, terminava amanhã. São várias lembranças e o que fica é a amizade", pontua. 

 

MARECHAL 

Primeira criança a colocar os pés em Marechal Cândido Rondon, Ilo Weirich vê hoje um município forte, maduro e bem desenvolvido. "Marechal se desenvolveu muito bem e muito rápido. Não vamos dizer que poderia ser melhor, porque está bom assim. Logicamente que sempre tem o que melhorar, mas temos uma cidade muito boa", opina.

 

PASSADO E FUTURO

Para o rondonense, passado e futuro se unem pela paixão à profissão e ao trabalho. "Me orgulha o meu passado, passado limpo. O ser humano não pode ser perfeito. A gente sempre procura ser o máximo que pode, mas o exemplo tá aqui hoje. Temos um comércio que o pessoal procura porque a gente tem ficha limpa, graças a Deus, pontua. 

Embargado, Ilo dispara: "Se eu pudesse trabalhar até no último dia da minha vida. Se Deus me desse liberdade até o último dia, não importa a idade, quero apertar parafuso, trocar parafuso, mexer na graxa, até no último dia", pede, emocionadoPara quem tem dúvidas, emenda: "Os caras falam, são 50 anos e poucos anos, você não precisa mais trabalhar. Ai eu respondo: quer que eu vá pros boteco jogar baralho, ficar pescando o dia todo? Eu me divirto aqui no trabalho".

Ilo é um dos milhares de trabalhadores urbanos e rurais que construíram e constroem diariamente Marechal Cândido Rondon, município que se desenvolveu em torno do trabalho e ousadia e se pauta neles para construir o futuro. 

 

 

 

 

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