Os primeiros imigrantes

Religião 26 de Julho de 2017
Professor Dr. Marlon Ronald Fluck

Professor Dr. Marlon Ronald Fluck


Em 2010, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB – completou 60 anos como organização nacional (...)


Uma série de artigos sobre a presença do protestantismo em terras brasileiras foi produzida por diversos especialistas e publicada no portal <http://luteranos.com.br/conteudo_organizacao/ieclb/os-primeiros-imigrantes>. 
Entre as publicações alusivas à comemoração está o trabalho do pastor e professor doutor Marlon Ronaldo Fluck (de 01 de março de 2010 e adiante reproduzido ), de notável importância para quem quer conhecer os primórdios da presença luterana no Brasil.

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Os primeiros imigrantes

01/03/2010

   Dando sequência à série de matérias especiais em comemoração aos 60 anos da IECLB, nesta edição o P. Marlon Ronald Fluck, especializado em Sociologia Urbana e em Serviço Social da Família, Mestre em Teologia e História, Doutor em Teologia e História pela Universidade de Basiléia, vai apresentar a vinda de imigrantes alemães luteranos ao Brasil antes de 25 de julho de 1824, marco do início da história da IECLB

   
É fato comprovado que a chegada dos imigrantes alemães à cidade de São Leopoldo/RS não se constitui na primeira vinda de alemães ao Brasil. Já no século XVIII, eles foram sendo instalados na região amazônica. Em 1818, surgiu Leopoldina/BA. Em 1821, Mandioca/RJ (com Georg Heinrich Freiherr von Lagsdorff). Em 1822, Almada (junto a Ilhéus) e Franckenthal (junto ao rio Caravelas), na Bahia. Em 3 de maio de 1824, Nova Friburgo/RJ.

Acampamento dos emigrantes suíços em 
Mijl, povoado ao sul de Dordrecht
- julho a setembro de 1819 
(aquarela de Isaak Schouman)

   Em 1817, devido ao desemprego, à carestia e às dificuldades econômicas resultantes das guerras napoleônicas, surgiu grande penúria na Suíça. Isso levou o cantão de Friburgo a negociar com o Reino de Brasil, Portugal e Algarves a possibilidade de enviar emigrantes ao Brasil. O interesse da corte luso-brasileira na imigração era tão grande que o fato de alguém ser acatólico não seria impedimento. Em 1819, cerca de 2100 suíços oriundos de vários cantões se dirigiram à Holanda, nas proximidades de Dordrecht, onde tiveram que ficar acampados de modo rudimentar durante 70 dias. 
   Foi um período de muitas doenças e morte. Charles Merkus, pastor da Igreja Protestante Francesa de Dordrecht, interessou- se pela situação dos emigrantes e passou a visitá-los. Como resultado, foi realizada, na igreja, em 20 de agosto de 1819, uma assembleia dos emigrantes protestantes em que 190 participantesaprovaram os estatutos para uma igreja no Brasil e constituíram um Comitê com a função de vincular os protestantes em uma comunhão intensa e defender os interesses religiosos evangélicos diante do rei de Portugal e Brasil, tendo em vista a realização de culto público e a concessão de um pregador ordenado pela Igreja Protestante.

Cenas da vida a bordo

   A ênfase na prática privada do culto evangélico, na leitura da Bíblia, na oração e no vínculo com as Sociedades Bíblicas e Missionárias demonstra a influência da prática da fé cultivada pelo movimento do Reavivamento. Para este grupo de emigrantes, chegou a ser cogitado o envio de um pregador, porque a Sociedade Auxiliadora à Missão da Basiléia, em Berna, criada em 1819, tinha como um dos seus objetivos iniciais apoiar a missão dos protestantes no Brasil. Os 190 protestantes haveriam, no entanto, de sofrer enorme pressão. Quando foi realizada a festa de fundação de Nova Friburgo, em 17 de abril de 1820, o Inspetor Geral de Nova Friburgo chamou os suíços protestantes a se converterem ao Catolicismo. 
   A situação dos protestantes de Nova Friburgo, que foram sendo gradativamente reduzidos a um pequeno grupo, somente viria a melhorar com a chegada de um grupo de imigrantesalemães oriundos do Hunsrück, arregimentados pelo Major Schaeffer e seu Agente Kretschmer. A fim de convencer pessoas a virem ao Brasil, ambos fizeram promessas mirabolantes. O primeiro grupo que conseguiram convencer era composto de 324 colonos, dos quais 110 eram oriundos da região de Becherbach bei Kirn, local do pastorado de Friedrich Oswald Sauerbronn.

Colônia de Nova Friburgo - 1820
(pintura de Jean Baptiste Debret)

   Sauerbronn foi originalmente contratado para ser pastor e Diretor dos educandários que viriam a ser edificados em Almada, colônia alemã recém-criada nas proximidades de Ilhéus, na Bahia. Sua tarefa seria batizar os escravos, converter os indígenas que moravam nas vizinhanças e atuar missionariamente. Cerca de quatro meses depois do contrato com Sauerbronn, o Major Schaeffer fez um contrato com os demais colonos do Hunsrück no qual mudou a localidade de destino, agora Leopoldina e Franckenthal, além de outros tópicos. 
   Saindo no início de maio de 1823 do seu local de moradia, somente em janeiro de 1824 chegavam os alemães ao porto do Rio de Janeiro e, em maio de 1824, a Nova Friburgo, então um projeto fracassado de colonização que D. Pedro queria retomar. Em Nova Friburgo, Sauerbronn deveria ser o pastor de todos os protestantes, fossem eles alemães ou suíços. 

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Cemitério Evangélico Luterano ‘Jardim da Paz’


   Menos de duas semanas após a chegada, o pastor Sauerbronn teve que sepultar o seu filho Peter Leopoldo, que nascera durante a viagem.
 

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O cemitério da cidade era destinado aos católicos
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   Não lhe foi permitido fazê- lo no cemitério da cidade, pois este era destinado somente às famílias católicas. Recebeu, então, a doação de uma área de terras, onde realizou o sepultamento.

Pastor Friedrich Oswald Sauerbronn
(1784-1864)

 

   Assim surgiu o Cemitério de Nova Friburgo, que, mais tarde, foi denominado Cemitério Evangélico Luterano ‘Jardim da Paz’.  
   Os cultos foram realizados, inicialmente, em uma pequena casa. O próprio Sauerbronn relata que residiu em duas choupanas de taquara e barro abandonadas pelos suíços e, em uma casa semelhante, de 10x16 pés, na qual não havia banco, púlpito e nem altar, celebrou o primeiro culto, em 14 de julho de 1824. 
   Em 1827, construíram uma pequena capelinha, mas tiveram que demoli-la a mando das autoridades. Somente em 1857 puderam edificar uma segunda, mas ainda precária casa de oração. 
   O pastor Sauerbronn também visitou os evangélicos do Rio de Janeiro (até 1847) e de outras cidades vizinhas. Os membros residiam espalhados no meio das serranias quase inacessíveis. 
   Grande parte deles seguiu rumo às fazendas de café em Cantagalo e arredores. A partir de 1868, muitas famílias luteranas começaram a colonizar a região de Manhuaçu/MG, sendo Wilhelm Eller o pioneiro. 
   Leia mais sobre a história da Comunidade de Nova Friburgo no portal da IECLB www.luteranos.com.br

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                                          O projeto histórico-cultural “Memória Rondonense” reproduz o artigo acima em virtude de alta relevância histórica para as comunidades protestantes do Oeste do Paraná. O original da publicação pode ser lido, em:<http://luteranos.com.br/conteudo_organizacao/ieclb/os-primeiros-imigrantes > . Acesso em 26.07.2017.  
  • Indicação da publicação no referido portal, foi feita pelo professor doutor Marlon Ronald Fluck, via e-mail: harto.viteck@gmail.com, em 26.07.2017. Agradecemos a gentileza. 

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