Guido Rockenbach

15 de Fevereiro de 2016

“ Vendi entre 1956 a 1970 em torno de 300 mil mudas de árvores frutíferas de diversas espécies para os povoadores do Oeste do Paraná ... “

GUIDO ROCKENBACH - PIONEIRO DA FRUTICULTURA NO OESTE DO PARANÁ

No mes de julho do ano passado, o jornalista Harto Viteck manteve demoradas conversas com o pioneiro Guido Rockenbach (hoje com 88 anos e com uma saúde invejável) para a produção de uma matéria sobre a memorável "Quinta das Seleções", de sua propriedade. 

Um empreendimento que se tornou famoso por sua exemplar organização e a qualidade das mudas ofertadas. 

A reportagem foi publicada na coluna do jornalista nas edições do citado jornal de 24 de julho e de 08 e 14 de agosto de 2015.

Dada a relevância daquele trabalho, por seu conteúdo histórico-informativo, fruto de entrevistas, ele é reproduzido aqui, com as revisões necessárias. 

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A memorável  Quinta das Seleções

   Se perguntar-mos a pioneiros rondonenses e mesmo do Oeste do Paraná, o que foi esse empreendimento, eles tem uma resposta pronta: o melhor fornecedor de mudas frutíferas para a formação de pomares em nossas propriedades naqueles tempos de começo.

  Estima-se que a Quinta das Seleções tenha vendido entre 1956 a 1970 cerca de 300 mil mudas entre os povoadores da região. A propriedade foi a maior fornecedora de espécies de árvores de fruta no triângulo Guaira-Cascavel até Foz do Iguaçu. Sabendo da alta qualidade de seleção das mudas produzidas, muita gente vinha de longe fazer suas aquisições de plantas.

  Em outro momento, se indagar-mos aos mesmos pioneiros quem era o fundador da Quinta das Seleções, não faltarão palavras de elogio e dirão que ele foi um homem idealista, inovador, de princípios, esmerado em produzir qualidade, trabalhador, pessoa de cultura, de ler muito (aliás, mesmo com seus mais de 80 anos, continua ávido por leitura).

   Os vizinhos lembram dele como um homem  bom, sempre disposto em ajudar nas necessidades, sem nunca pedir algum recompensa. Muitos mencionam do pronto apoio que tiveram dele para levar algum familiar doente ao hospital ou mesmo a esposa em trabalho de parto, independente da hora do dia ou da noite: ... ele sempre estava pronto com seu jeep”.

   Conversando com o senhor Guido Rockenbach,  idealizador da Quinta das Seleções, logo se percebe ser um homem de fortes convicções.  Constata-se que admira o  ex-presidente dos Estados Unidos, John Kennedy e  também fala do ex-governador do Paraná, Jaime Canet Junior, a quem considera como o melhor pelo seu empenho em desenvolver o Estado. Como milhares de outros brasileiros,  é discípulo da doutrina do ambientalista gaúcho José Lutzenberger (1926-2002), defensor da agricultura ambientalmente correta.

 

    O começo

  Para conhecer  detalhes do surgimento da Quinta das Seleções é preciso retroceder no tempo, para o começo do século 20, mais precisamente a 1904, na vila de Santa Clara⁽¹⁾, no município de Lajeado, RS.

 ⁽¹⁾  hoje é o pacato município de Santa Clara do Sul, emancipado em 1992 e atualmente com um índice populacional é de cerca de cinco mil habitantes.

     É conhecida como a “Cidade das Flores” do Rio Grande do Sul.

Nessa localidade os pais de Guido Rockenbach⁽²⁾ eram renomados criadores de cavalos de alta linhagem. Por muito tempo foram fornecedores  puros sangue-inglês para  turfistas de Porto Alegre.

⁽²⁾ O sobrenome Rockenbach, com “n”, no Brasil tem sua origem no imigrante alemão Johann Daniel Rockenbach, desembarcou no Rio de Janeiro em 17 de dezembro de 1828, seguiu viagem até São Leopoldo e posteriormente até São José do Hortêncio,  onde fixou residência. Casou-se com Anna Margaretha Burg em dois de maio de 1830 na cidade de São Leopoldo tiveram oito filhos: Catarina ,Mathias, João, Jakob, José Pedro, Margarida, Anna Gertrudes e Adão Aloísio. Johann Daniel é natural da cidade de Pünderich, às margens do Rio Mosela (em alemão “Mosel”). A família tem nessa cidade uma longa tradição de produtores de vinhos finos, e descendentes do ramo que ficou na Alemanha permanece na atividade.

⁽²⁾ ... O fundador da Quinta das Seleções é bisneto do imigrante Johann Daniel, neto de João Rockenbach e filho de José Ernesto Rockenbach.

  Por volta de 1904 os pais de Guido, paralelo as atividades de criação de cavalos para pistas, implantaram um viveiro de mudas frutíferas e plantas ornamentais de alta qualidade genética – uma seleção das melhores espécies disponíveis no mercado. As plantas foram sucessivamente aperfeiçoadas por enxertia e outras técnicas de melhoramento. Com o crescimento do empreendimento  e com a propriedade não permitindo uma expansão, a família mudou-se para o município de Carazinho. Ali fundaram a “Quinta da Paneira”⁽ᵌ⁾, que tornou-se muito famosa em todo o Rio Grande do Sul dada a alta qualidade de mudas que oferecia.

   ⁽ᵌ⁾ - Nome dada em homenagem a frondosa paineira que existia no local.

 Foi neste ambiente onde a busca da qualidade era seguida à risca, que  cresceu o menino e depois o jovem Guido Rockenbach aprendendo com o pai a esmerada técnica de produção de mudas.

 

     Vinda ao Paraná

   Como centenas e centenas de solteiros em vias de casar, estimulados pelos pais para irem fazer a vida nas novas frentes de colonização, Guido Rockenbach veio a então General Rondon⁽⁴⁾ em 1955 para adquirir um pedaço de terra. Comprou às margens da estrada que  vai para a Vila Curvado, próximo a atual sede do Batalhão de Polícia de Fronteira.

   ⁽⁴⁾Aqui já morava  Henrique Scheid, casado com Maria Rockenbach, tia de Guido,  vindos no começo da década de 1950, ele como agrimensor contratado pela Colonizadora Maripá. Fez a medição e a divisão dos lotes para a formação da futura vila de General Rondon. Scheid foi o primeiro agrimensor legalmente registrado no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura – CREA – a chegar no Oeste do Paraná. Ele também o primeiro juíz de paz nomeado para a função em Marechal Cândido Rondon (VITECK, Harto. A Memorável Quinta das Seleções. O Presente, Marechal Cândido Rondon; ed. 31.07.2015, p. 4). 

  Adquirida a área que lhe agradou, Guido  logo tratou de derrubar um pedaço de mato para construir a residência⁽⁵⁾ , instalações para abrigo de animais e equipamentos e área para implantar o viveiro de mudas.

   ⁽⁵⁾ Contratou para a edificação da moradia os carpinteiros Oswaldo Hartmann e ... Trautmann e como mestre de obras o senhor Ervino Finger.

       1 – Oswaldo Hartmann casou-se  no final da década de 1950, com Elza Deuter, pioneira de Iguiporã. Nessa vila instalou uma casa de comércio de secos e molhados, ficando com ela até o começo da década de 1980, quando o casal se mudou para a sede municipal de Marechal Cândido Rondon.

      2 -  Quanto ao senhor Trautmann não foi possível obter informações.

      3 – Ervino Finger foi um dos primeiros carpinteiros contratados pela Colonizadora Maripá. Começou trabalhando em Toledo, depois a empresa o transferiu para a então General Rondon.

      Com tudo pronto, o noivo Guido Rockenbach voltou ao Rio Grande do Sul para casar-se com a senhorita Irmy Schmaedecke, uma das primeiras formandas em contabilidade na cidade de Carazinho.  Em 1956 os recém-casados tomam rumo ao Paraná e chegam a então General Rondon,  em 28 de julho, depois de quatro dias de sofrível viagem. Junto a mudança,  Guido trouxe uma preciosa coleção de 500 mudas de frutíferas da mais alta qualidade, selecionadas entre as melhores do viveiro da portentosa “ Quinta da Paneira”.

    Nos quinze anos seguintes, a “Quinta das Seleções” seria a melhor produtora de mudas de frutíferas e, em menor escala, de roseiras inxertadas da região.

 

    A fundação da associação rural em Marechal Rondon

   Idealista e convictto de que a cooperação mútua propicia resultados mais vantajosos aos que se somam, Guido Rockenbach foi um dos motivadores com outros agricultores pioneiros para o surgimento da associação rural de Toledo, a cujo município a então General Rondon pertencia, na segunda metade da década de 1950. Todavia, enquanto a entidade estava em Toledo, ela “não foi prá frente”, o que desgostava Willy Barth. Assim, certo dia o colonizador transferiu a associação para Marechal Rondon e a entregou nas mãos de colonos locais para fortalecê-la e “fazer funcionar”. Acertou também com o pioneiro e agricultor Alfonso Diesel para assumir a presidência da entidade classista. Em Marechal Cândido Rondon,  de acordo com Rockenbach , a associação logo se tornou forte e estabeleceu uma boa estrutura de apoio aos seus associados. A primeira sede da entidade foi a Avenida Rio Grande do Sul, próximo a Delegacia de Polícia, no terreno onde hoje está instalado o prédio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Lembra Rockenbach que os primeiros funcionários da entidade classista foram os pioneiros Hilário da Cunha e Ercy Sturm.    A antiga associação rural anos mais tarde passou por transformações e resultou na criação de dois sindicatos, o anterior referido e o Sindicato Rural Patronal, ambos ainda existentes. 

 

   Os desfiles na Festa do Município

   Como líder comunitário e amigo pessoal de Arlindo Alberto Lamb,  Guido Rockenbach foi um dos grandes incentivadores junto ao primeiro prefeito eleito de Marechal Cândido Rondon, para que durante  as festas do Município houvesse o desfile de carros alegórios para destacar o pioneirismo e a pujança da comunidade. A iniciativa pioneira, como visto, é reeditada a cada novo aniversário de emancipação político-administrativa. O próprio Guido Rockenbach participou de vinte e dois desfiles. Segundo a pioneira e professora Edite Feiden  “este homem cultivou a terra e colheu maravilhas! Qdo dos desfiles, expunha alegoricamente os frutos da terra e as cítricas me deixavam com água na boca” (VITECK, Harto. A Memorável Quinta das Seleções. O Presente, Marechal Cândido Rondon: ed. 08.08.2017, p. 4). Outra rondonense, Maria de Oliveira, lembra saudosa  ... e as rosas , então... maravilhosas”!  (idem)

 

   Fundação da Copagril

   Guido Rockenbach é um dos vinte e nove agricultores rondonenses que fundaram a Cooperativa Agrícola Mista Rondon Ltda. – COOPAGRIL, hoje simplesmente Copagril Agroindustrial, em 09 de agosto de 1970. Rockenbach detém a matrícula 13 e foi o primeiro vice-presidente da entidade cooperativista,  função que exerceu durante seis anos. Frisa que naqueles anos pioneiros da Copagril não havia remuneração para o cargo.

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   Auge e declínio

   Como já dito em texto anterior, a Quinta das Seleções teve seu auge de negócios entre 1957 a 1970, com cerca de 300 mil mudas vendidas no Oeste do Paraná. Depois os proprietários começaram a ter problemas de concorrência desleal com a vinda fornecedores  de mudas frutíferas de fora, que chegavam às propriedades anunciando que  as espécies que ofereciam eram da Quinta das Seleções. Esse tipo de comércio causou prejuízos para o bom nome da empresa, pois as mudas   não tinham a qualidade de produção anunciada, o que decepcionava o comprador que achava que tinha sido trapaciado pela família Rockenbach.

    Outra coisa que concorreu em prejuízo da Quinta das Seleções foi a mudança de estilo de vida no campo. A vinda da mecanização na década de 1970 mudou a prática da  agricultura tradicional de sobrevivência para a agricultura de exploração lucrativa. A terra deixou de ser empregada como meio principal de produção de alimentos familiar.

    No entanto, o derradeiro golpe para a Quinta das Seleções veio com a Campanha Nacional de Erradicação do Cancro Cítrico - CANECC, quando técnicos da famigerada campanha invadiram a propriedade no início da década de 1970 e destruíram, sem qualquer ordem judicial, mais de 14 mil mudas cítricas prontas para venda e ameaçaram o proprietário que punições mais severas seriam impostas caso persistisse na produção de novas mudas.

    Sabe-se hoje que a CANECC foi organizada e fomentada pelos fortes grupos econômicos da laranja de São Paulo para combater a concorrência dos produtores da fruta do Sul que tinha mais qualidade,  o que prejudicava os interesses dos paulistas. Para não mostrar a cara do real motivo da campanha, a desculpa arranjada foi a do cancro (Lutzenberger, <http://www.fgaia.org.br/texts/cartas/t-cancro.html>. Acesso e, 15.02.2016).

 

    Particularidades históricas

1 – Guido Rockenbach teve o primeiro jeep em Marechal Rondon, ano 1951 – importado – que adquiriu de Egon Pudell, gerente-geral do Empório Toledo, depois prefeito municipal de Toledo, deputado estadual e presidente da Assembléia Legislativa do Parana;

2 – foi proprietário em Marechal Rondon do primeiro jeep,  ano 1959, fabricação nacional;

3 – adquiriu o primeiro trator Massey-Fergusson, fabricação canadense, financiado pela agência do Banco do Brasil, de Foz do Iguaçu, no começo da década de 1960;

4 – trouxe junto com a mudança em 1956, a primeira vaca puro-sangue holândes para Marechal Rondon, que produzia uma média diária de 28 lts de leite. O animal conquistou o primeiro lugar em produção de leite na exposição agropecuária de Toledo, em 1958, realizada na então General Rondon

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   A Quinta das Seleções  permanece  em mãos do  fundador que  nela reside até hoje. Produz-se ainda uma ou outra muda de frutífera. Porém, a propriedade se mantém com a agricultura em voga.

 

 

 

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